sábado, 14 de fevereiro de 2009

Ah! A tal de formação...Como vir a ser um psicanalista.

Pensando bem, até que, teoricamente, a coisa não é tão complicada assim.

Primeiro, a pessoa procura um “Grupo de Formação”. Alguns se denominam “Institutos de Psicanálise”, outros têm nomes diferentes. A pessoa é ou não aceita, depois de preencher as exigências que podem variar muito de grupo para grupo. Uma vez dentro, ela deve seguir um programa de formação. Mas aí começam os problemas: existe psicanalista formado?… Quando alguém pode se considerar um psicanalista?

Como a profissão não é regulamentada, qualquer pessoa, com ou sem formação, pode se apresentar como um psicanalista, um título que no Brasil ainda carrega muito prestígio. Aqui, ir a um psiquiatra não dá muito ibope… mas ir a um psicanalista dá até algum status...

De um modo geral a formação se baseia num tripé: Análise Pessoal, Seminários Teóricos e Análise sob Supervisão. Parece simples não é? Mas a coisa não é bem assim, e as perguntas vão logo aparecendo: A análise pessoal de um psicanalista em formação deve ser mais exigente e mais complexa do que a de um analisando comum? E ela poderá ser feita com qualquer analista ou só com analistas selecionados (“os melhores”) chamados “Analistas Didatas”?

E os Seminários? Eles devem abordar o corpo teórico que vem sendo formado desde Freud? Mas isto é muito vasto e por isso cada grupo tem os seus autores e as suas teorias prediletas, que geram enormes controvérsias e até inimizades entre os grupos. Geralmente os professores do grupo determinam os trabalhos que devem ser estudados. Mas, mais perguntas: Como esses professores são selecionados dentro dos grupos? Isso pode virar uma Torre de Babel dentro do que poderíamos chamar de “movimento psicanalítico”. Grupos privilegiam autores em detrimentos de outros, às vezes se transformando em seguidores fiéis de um autor só, rejeitando todos os demais. E ai do candidato quando ele não reza pela cartilha.

E as primeiras análises do candidato com seu analisando sob supervisão? Repararam esse nome interessante: “candidato”? Seus supervisores devem ser selecionados? Por quem? Geralmente essas análises são (ou deveriam ser…) de baixo custo com o analisando sabendo que está fazendo análise com um candidato em formação, sob supervisão. Mas nem sempre á assim. Eu já conheci candidatos ambiciosos que cobravam mais do que os seus supervisores.

Além disso tudo existe uma grande política institucional em cada grupo, geralmente uma briga de foice pelo poder, que, uma vez instalado, é difícil de mudar. Cada grupo acaba tendo um núcleo que o dirige e que é sempre muito respeitado, para não dizer temido. É sempre muito difícil, dentro da instituição, questionar os membros desse núcleo de dirigentes poderosos.

Acho que já deu para vocês sacarem como esse campo da formação é minado… Acho impossível descrever o que se passa em todos os grupos, espalhados pelo mundo, que se propõem a “formar” psicanalistas. Mas, de um modo geral, a gente poderia dizer que eles vão de extremo a extremo, com muitos no meio. Os mais conservadores se propõem a selecionar melhor os candidatos e a exigir que eles sejam psiquiatras ou psicólogos com evidências de talentos para exercer a profissão. Interessante notar que alguns Institutos chegam a dizer que é de certa importância o candidato ter passado por problemas emocionais pessoais, pois isso os motiva a entrar nessa profissão. No outro extremo existem grupos de formação que aceitam praticamente qualquer pessoa formada em curso superior, desde, naturalmente, que ela possa pagar. É lugar comum afirmar-se que “a formação é cara".

Até agora só falamos de formação. A psicanálise nunca entrou nas universidades e, como já disse, até hoje não é uma profissão legalmente regulamentada. Talvez, pela sua natureza, ela tenha mesmo de ser assim. Qualquer cidadão pode abrir seu consultório de psicanálise sem que isso fira nenhuma lei. Aliás, por causa do prestígio do nome, quase todos tratamentos psicológicos no Brasil hoje são apresentado como “psicanalíticos”.

Voltemos um pouco para a história. Como sabemos, Freud passou a sua vida ouvindo os seus pacientes e escrevendo sobre o que com eles foi descobrindo e imaginando sobre o funcionamento mental. Não entraremos aqui nas suas descobertas espetaculares que mudaram a percepção que nós hoje temos dos nós mesmos como sêres humanos. Ele foi sendo rodeado de profissionais que se interessaram pelas suas descobertas. Eventualmente foi formada uma instituição de caráter universal: a IPA (International Psychoanalytical Society).

É interessante notar que alguns de seus discípulos permaneceram na correnteza central da psicanálise. Outros, como Jung e Adler, só para citar dois, acabaram rejeitados pelo grupo e formaram seus próprios grupos. Uma de suas alunas, Melanie Klein, uma Assistente Social, cresceu dentro da correnteza central da psicanálise freudiana, mas pesquisou áreas nas quais Freud não havia mexido muito: o desenvolvimento infantil primitivo pré-genital, isto é, os primeiros anos de vida e o papel da agressão (instinto de morte?), além da libido na formação da personalidade. Em alguns pontos ela conflitou tanto com seus colegas freudianos que houve um tempo em que os kleinianos não falavam com os freudianos. Hoje isso está mais ao menos resolvido e os kleinianos foram absorvidos pela correnteza central psicanalítica.

Se a gente olhar como a psicanálise se espalhou pelo mundo, a coisa também fica interessante e, por que não dizer, complicada.

Inicialmente e depois por muitos anos, os médicos se apoderaram da psicanálise nos Estados Unidos. Só eram aceitos para formação médicos psiquiatras. Foi preciso uma ação judicial de psicólogos para que eles tivessem o direito de entrar nos Institutos de Formação da Associação Psicanalítica Americana, afiliada à IPA. Essa associação de médicos era tão poderosa que contratou uma tradução para o inglês da obra de Freud (James Strachey) que foi feita medicalizando muitos os termos. Também os psicanalistas norte-americanos trabalham não só com a primeira tópica como também com a segunda.

Na Inglaterra alguns autores se enveredaram pelas relações objetais e levaram a psicanálise para esse caminho.

Na França ela foi arrastada para a literatura e para a lingüística, pelo menos por um grupo que hoje tem uma presença mundial separada da IPA: os seguidores de JAcues Lacan que formaram sua própria organização internacional depois que Lacan foi expulso da IPA. Tudo naturalmente com o apoio do Ministério da Cultura da França, que investe muito em divulgar trabalhos franceses pelo mundo. Hoje, o genro de Lacan dirige essa instituição mundial que tem crescido muito, especialmente nos países latinos (entre eles o Brasil). Ninguém sabe muito bem a razão disso.

Na Argentina a psicanálise é tão popular que há quem diga que a metade da população faz análise. Inicialmente análises kleinianas porque a psicanálise chegou na Argentina através de psicanalistas que se especializaram na Inglaterra com a Melanie Klein e seus seguidores.

De um modo geral nos países marxistas a psicanálise nunca teve um lugar porque, como sabemos, o entendimento do comportamento individual está sempre atrelado à sociedade e à economia. Alguns filósofos europeus dançaram miudinho tentando juntar a psicanálise com o marxismo. Se o conseguiram o fizeram de um modo tão obscuro que a maioria das pessoas não consegue entende-los.

É interessante notar que analistas talentosos que contribuíram genuinamente para a teoria e técnica psicanalíticas, freqüentemente não se contentaram em ser apenas contribuintes da correnteza central. Além de Lacan que afinal acabou formando o seu próprio grupo, a gente pode pensar em Kohut, nos Estados Unidos, que acabou fazendo o mesmo, mas numa proporção mais local.

Bem, apesar disso tudo, das brigas teóricas e até pessoais entre os grupos e apesar do lobby da indústria medicamentosa sempre querendo reduzir os problemas mentais a funcionamentos cerebrais, podemos afirmar, sem medo de errar, que o movimento psicanalítico iniciado por Freud parece estar aqui para ficar. A psicanálise continua sendo uma presença no nosso mundo sócio-cultural e um modelo de atendimento para certos transtornos mentais.

A dificuldade parece estar em escolher onde fazer a formação, e no caso dos analisandos como escolher o psicanalista. Às vezes isso implica em tentativas e erros até a pessoa encontrar a pessoa certa para ela. Não existe nenhuma evidência científica que demonstre que uma “escola psicanalítica teórica” seja mais eficiente do que a outra.

Acho que a psicanálise é sempre uma questão muito pessoal.
28/09/08

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