sábado, 14 de fevereiro de 2009

Deus e o Psicanalista..

Num determinado momento de minha carreira, eu estava terminando o tratamento psicanalítico de um rapaz solteiro de 33 anos, que já havia trabalhado e resolvido os seus maiores conflitos e estava se preparando para sair por aí para viver o seu futuro como todo o mundo, livre de suas neuroses.

Na medida em que íamos aproximando da data do término da análise, eu percebia que o meu analisando estava tendo dificuldades em se separar de mim e cada vez mais me falava das dificuldades emocionais de sua família de origem: seus pais e seus irmãos. Era mesmo uma família mentalmente não muito sadia, muito sofrida, cada membro carregando a sua cruz. Mas eles não tinham procurado tratamento para as suas dificuldades e não estavam indo muito bem em suas vidas. Isso era muito doloroso para o meu analisando.

Ele, que já estava bem, pronto para enfrentar as vicissitudes de sua vida neste mundo sem as suas neuroses, se agarrava a mim, e, em cada sessão, falava de um membro de sua família com muito sofrimento. Depois de muitas sessões dedicadas aos seus familiares, nós dois descobrimos que ele estava esperando que eu, mesmo não tendo contato com a sua família, pudesse aliviar os sofrimentos deles.

Como isso não parecia ser possível dentro das minhas limitações, descobrimos que o analisando estava inconscientemente desejando que eu fosse Deus para aliviar o sofrimento da sua família. Ele se sentia culpado de estar bem, sabendo que as pessoas da família, gente com quem havia crescido, estava indo de mal a pior por causa de suas neuroses e psicoses.

À medida que trabalhávamos a realidade de eu ser um simples mortal, portanto incapaz de aliviar o sofrimento daquelas pessoas importantes, ele ia aceitando as minhas limitações. Aos poucos foi percebendo que, com relação à sua família de origem, ele só podia mesmo era sentir uma dor emocional ao falar de seus sofrimentos. Isso tudo culminou numa sessão na qual ele percebeu claramente que não havia nada que ele pudesse fazer, além de chorar. E então chorou copiosamente durante várias sessões. E de repente se lembrou de rezar como fazia quando menino pedindo a Deus pelos seus familiares.

Num momento desse nosso trabalho, o analisando se lembrou de sua infância, quando ia às missas de domingo e rezava pelos seus pais e irmãos, pedindo a Deus para fazê-los felizes. Naquela época ele tinha um conflito infantil que era difícil de ser resolvido. Seus pais esperavam que ele fosse às missas todos os domingos e ele assim o fazia. Mas eles próprios não iam a essas missas. Na sua mente de criança achava que por não faltar às missas, se ele morresse, iria para o céu. Mas os seus pais, por não irem à missa, iriam para o inferno. Ele ficava imaginando se seria feliz no céu, sabendo que os seus pais estavam no inferno. Aquela situação infantil agora se repetia no fim de sua análise: poderia ele estar bem, ter uma vida satisfatória e agradável, sabendo do sofrimento mental por que passava sua família de origem?

Por um momento isso o estava impedindo de terminar a sua análise e de pensar no seu futuro. Como na situação infantil, ele queria que eu, um “Deus”, pudesse aliviar o sofrimento de sua família para ele então poder estar bem!

Isso nos leva a uma questão de meu interesse desde que iniciei o meu trabalho como psicanalista. Em muitas situações de sofrimento e de desespero dos meus pacientes e/ou de seus familiares, eu tive a vontade de ser Deus para aliviá-los. Aos poucos fui aceitando que a minha área de atuação frente ao sofrimento humano era bastante limitada: tentar resolver conflitos neuróticos e psicóticos analisáveis que podiam ser minorados e em alguns poucos casos, resolvidos.

Mas, na vivência humana havia inúmeras situações em que o sofrimento não era o produto de uma neurose ou de uma psicose: ele era parte das vicissitudes da vida real, sofrimentos às vezes intensos, inesperados e inevitáveis. Sentimentos que deveriam ser sentidos e não analisados.

Ao entrarmos nessa questão do sofrimento humano, do qual nenhum de nós está livre, entramos na dimensão de Deus e da religião, porque não acredito que a humanidade esteja pronta para enfrentar nenhum sofrimento sem essa dimensão. Pode ser até que um dia a humanidade chegue lá, mas quando eu olho para a história, desde os povos mais primitivos e simples aos mais sofisticados e tecnológicos, vejo sempre essa dimensão espiritual, um relacionamento com uma força maior do que nós, seres limitados, a quem recorremos nas ocasiões de dores inevitáveis que afetam nossas vidas. Acredito que a psicanálise nunca poderá preencher esse espaço por uma razão muito simples: o psicanalista não é Deus.

No futuro, não sei. Será que teremos um admirável mundo novo sem Deus e sem religião, onde as pessoas enfrentarão essas dores sem a dimensão espiritual?
Só o tempo dirá. Mas tenho a certeza de que a psicanálise nunca irá preencher esse lugar!
13/06/08

Um comentário:

  1. "O deus justo e a natureza benevolente são apenas as mais nobres sublimações de nosso complexo parental; e o nosso desamparo infantil é a fonte última de toda religião." Sigmund Freud
    Embora eu seja um leigo de educação formal mediana, espero superar meus cincoenta anos de vida consciente da puerilidade dessa "dimensão espiritual".
    No ato de existir, aprendi a duras penas o potencial da transferência do papel dos pais em minha interação com as forças nem tão sutis nela implícita. Não é à toa que os diversos dogmas enfatizem a dor, o sofrimento como meio sem o qual o espírito torne-se purificado. Honestamente, sinto insofismável comiseração dos que apelam à crença de interseção sobrenatural no que sempre será natural, a saber: nascemos, desenvolvemo-nos durante um período cronológico até que a finalidade de nossas vidas seja visada, e morremos, e fim.

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