sábado, 14 de fevereiro de 2009

Freud? Quem? Qual Freud?

Como vocês sabem Freud nunca parou. Vocês já pensaram onde ele estaria hoje se estivesse vivo?… À medida que foi vivendo e ouvindo os seus pacientes, suas idéias foram evoluindo e ele foi mudando as suas concepções sobre o nosso funcionamento mental,.
Ele sempre foi flexível em suas teorias. Capaz de mudá-las quando percebia que as coisas não eram bem como ele as tinha pensado. Nesse sentido, Freud foi sempre, e acima de tudo, um pesquisador. Dependendo da época de sua vida suas concepções são diferentes. Essa coragem de mudar diante de novas evidências é prova de seu comprometido com a verdade.
Freud inicialmente imaginou que a nossa maior motivação era, essencialmente, a busca do prazer, através de uma energia situada entre o corpo e a mente chamada libido. Essa era uma teoria monista dos instintos. Para ele, a busca do prazer sexual não se limitava apenas à sexualidade adulta, como o termo é empregado pelo leigo. A sexualidade já estava presente desde o nascimento e mudava no transcorrer do desenvolvimento humano, passando por fases que foram denominadas de oral, anal, fálica e latência para chegar, finalmente, na fase adulta genital. Por muito tempo Freud considerou a agressividade (destrutividade) apenas como uma reação secundária às frustrações dos nossos desejos libidinosos.
O que vocês vocês acham? Quando pensam em vocês mesmos, concordam com essa concepção Freudiana? Nós simplesmente tentamos lidar com a nossa libido e nos defendemos contra ela quando nos coloca em perigo em termos de nossa sobrevivência na sociedade? A grande descoberta de Freud foi perceber que muitas dessas batalhas se passavam no nosso inconsciente sem a gente saber que elas estavam ocorrendo. Ele então concebeu a mente funcionando em níveis de consciência: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Essa primeira concepção é chamada de Primeira Tópica ou Teoria Topográfica. Já imaginaram que então não somos donos do nosso destino porque os maiores determinantes de nossas decisões ocorrem foram da nossa consciência? A gente fica se sentindo meio pequeno perante esse grande determinante desconhecido, não?
Só quando Freud chegou aos seus cinqüenta anos é que ele foi ficando impressionado com uma outra dimensão de nós todos: a agressividade e destrutividade. Várias coisas chamaram a sua atenção para esse lado mais sombrio. A primeira guerra mundial, com toda sua destrutividade, o suicídio, as reações terapêuticas negativas, o sadismo e masoquismo, só para citar alguns fenômenos. Juntamente com esses fenômenos Freud começou a lidar com os sentimentos de culpa em seus pacientes, pacientes que, apesar de bem analisados e de estarem prontos a viver uma vida prazerosa sem suas neuroses, se impediam de ficar bem numa espécie de compulsão à repetição… o medo de mudar, de ficar bom!
Isso tudo o levou a desconfiar que algo que ele não entendia bem deveria estar ocorrendo nos seus pacientes, além do princípio do prazer. Foi aí que ele percebeu que, além da libido, nós, seres humanos, somos influenciados por um instinto de destruição tão poderoso e tão presente desde o nascimento quanto a busca do prazer. Pensem bem, vocês conseguem ver isto em vocês mesmo? Ao aceitar que somos motorizados por dois instintos básicos, a teoria freudiana passou a ser uma teoria dualista dos instintos.
Juntamente com essa mudança Freud partiu para uma construção teórica: a sua Segunda Tópica ou Teoria Estrutural. Aqui ele imaginou a vida mental com as agências Ego, Id e Superego. Assim, o sentimento de culpa seria uma tensão entre o Ego e o Superego e o aparecimento da ansiedade estaria relacionado com o perigo da emergência, no Ego, de desejos, impulsos e sentimentos inaceitáveis e inconscientes. Nesta concepção, o ego se tornou um mediador entre o id, o superego e a realidade externa na qual nós todos estamos inseridos. O Ego se tornou um cavaleiro montado num cavalo bravo e observando o caminho a ser trilhado, evitando todos os perigos. Nessa visão estrutural, o Ego tem partes conscientes e partes inconscientes (por exemplo suas defesas), o Id é quase sempre inconsciente e o Superego também tem partes conscientes e inconscientes. Aliás, o Superego como tal só aparece clinicamente na forma de culpa quando não está em harmonia com as exigências da libido e da agressão vindas do Id.
O Ego inicialmente era considerado como se formando a partir de conflitos que tentava mediar. Mas autores que estudaram a adaptação do ser humano no seu ambiente social, especialmente os psicanalistas europeus que imigraram para os Estados Unidos, sentiram na própria pele a problemática da adaptação. A partir desses estudos eles postularam que o Ego não é formado apenas pelos conflitos. Ele tem uma parte autônoma, livre de conflito, e as pessoas já nascem com essa parte incipiente, que vai se desenvolver voltada para a adaptação do ser ao ambiente social médio. Mas, ao se interessarem por essa dimensão adaptativa, esses analistas nunca negaram a primeira e a segunda tópicas e nunca se propuseram a trabalhar apenas com os egos de seus pacientes para que se conformassem a uma realidade social. As críticas que receberam nesse sentido de certas fontes nunca foram justificadas. Vocês concordam que parte da problemática em todos nós é essa adaptação ao nosso mundo social?…
Freud nunca tentou juntar a sua primeira concepção (Topográfica) com a segunda (Estrutural). Ele continuou usando ora uma, ora outra. Pena que a vida é breve e como todo mundo Freud eventualmente nos deixou. Volto à minha questão inicial: vocês já imaginaram onde ele estaria em suas teorias se estivesse até hoje entre nós?…

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