segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Menos psicanálise é mais...Para quem?

Antes de mais nada, quero deixar claro que, neste artigo não estou me gabando e nem dizendo que a minha experiência como analisando tenha sido melhor ou pior do que as dos outros. Isso é impossível de medir. Mas, nos anos sessenta, quando fiz minha análise pessoal nos Estados Unidos, uma intervenção terapêutica só era chamada de psicanálise se estivesse dentro de certos parâmetros bem delineados.

Para ser considerado uma psicanálise, o tratamento deveria ter quatro sessões por semana, com o analisando deitado no divã. Às vezes, cinco. Três era uma concessão não muito bem vista, mas ainda aceita em alguns Institutos de formação psicanalítica. O tempo das sessões era sempre de cinqüenta minutos, cuidadosamente medidos pelo analista. Tudo isso de acordo com Freud quando ele definiu, com grande clareza, o seu método de tratamento.

Claro que nesse campo tão complexo, poderia até haver exceções, isto é, gente capaz de ser analisada com uma menor freqüência de sessões, ou até sentada em vez de deitada. Tudo é possível. Mas, em média, para a maioria das pessoas, esses parâmetros maximizavam o que Freud esperava acontecer no processo psicanalítico: o desenvolvimento e a resolução da Neurose de Transferência.

Naquela época, a psicanálise era muito popular nos Estados Unidos. O modelo acima era aplicável às pessoas consideradas analisáveis. Não eram muitas. Para a grande maioria das pessoas que buscava ajuda havia um atendimento menos intenso, chamado de psicoterapia psicanalítica, que era mais indicado. Essa psicoterapia era menos profunda, tinha uma freqüência menor de sessões e, via de regra, o paciente ficava sentado em vez de deitado. Lá, sempre houve e continua havendo essa diferenciação clara entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica.

Vocês podem imaginar que essa psicanálise não era barata. Com sessões tão freqüentes, os analistas corriam o risco de não terem pacientes se eles cobrassem muito por sessão. Também, como as sessões eram de cinqüenta minutos, eles tinham uma limitação no número de pacientes que poderiam atender nos seus consultórios. Por isso, de um modo geral, os psicanalistas americanos ganhavam o pão de cada dia sem se enriquecer.

Depois de dezesseis anos morando, estudando e trabalhando nos Estados Unidos, voltei para Belo Horizonte. Para a minha surpresa a psicanálise aqui era bem diferente. O que mais me chamou a atenção foi não haver uma diferença entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica. Era comum um “analisando” ter uma ou duas sessões de grupo e/ou uma ou duas sessão individuais de “psicanálise” por semana.

Quando eu tentava comentar essas diferenças, ouvia sempre objeções a eu estar falando de coisas externas tais como freqüência, duração das sessões e posição dos analisandos nos consultórios. Tentavam me convencer de que esses parâmetros nada tinham a ver com a essência da psicanálise, a qual se concentrava na fala do paciente e na escuta do analista. Mas, pensava eu, será que essas variáveis, tão bem delineadas por Freud, realmente não faziam nenhuma diferença em termos do processo psicanalítico?

Não tardou muito, e talvez coincidente com a minha volta, vi Jacques Lacan surgir no horizonte psicanalítico de Belo Horizonte. Eu sempre o achei meio antipático. Alguém que, para “demonstrar” a sua “superioridade” como o “verdadeiro psicanalista”, era impiedoso na crítica dos outros psicanalistas, especialmente os norte-americanos tão meus conhecidos. Como em Belo Horizonte quase que só havia literatura lacaniana, essas críticas de Lacan foram se transformando em lugar comum no meio psicanalítico mineiro. Sempre achei interessante que Lacan tivesse tamanha penetração nos países latinos, o mesmo não acontecendo nos anglo-saxões. Mas esta é outra história.

Para mim, no Brasil, a psicanálise que eu havia aprendido, não só teoricamente mas também na minha experiência pessoal como analisando, virou uma zorra. Com o nome mágico de “psicanálise”, todos os tratamentos psicológicos estavam incluídos e todos os profissionais nessa área, independentemente de suas formações, se apresentavam como “psicanalistas”.

Enquanto eu estava tentando entender essas diferenças, tomei conhecimento de dois procedimentos lacanianos que me chamaram a atenção: o chamado “tempo lógico!” e a exigência de o paciente pagar cada sessão em dinheiro vivo. Puxa, aí também já era mudar demais! Já não existiam mais os parâmetros de freqüência de sessões, agora nem havia mais o de duração das sessões, e surgia ainda um novo modelo do pagamento. Desculpem-me os iniciados da minha ignorância. Tenho a certeza de que para eles essas práticas têm um embasamento teórico profundo e são de muita valia para seus analisandos.

Mas não podemos deixar de considerar a possibilidade de elas beneficiarem mais os analistas do que os analisandos. Admito que isto pode ser uma grande coincidência, mas aquelas limitações dos analistas americanos, as de que não podiam ir além de um certo número de analisandos por dia com as sessões de cinqüenta minutos, foram superadas pelo modelo lacaniano. Eles, com o tempo lógico, podiam ter muito mais pacientes por dia, esperando numa sala de espera cheia, sem saber quando seriam chamados. Claro que pagando as sessões curtas como se fossem inteiras, a preço normal. Isto até me deu um pouco de inveja… Quem sabe não viro um lacaniano?…

Assim, até hoje não consegui resolver essa dúvida que se instaurou em minha mente. Essas mudanças na psicanálise que eu encontrei no Brasil são progressos no tratamento, isto é, dão melhores resultados para os pacientes ou... para os psicanalistas?

Assim, fica a pergunta: nessa psicanálise menos é mais... mas, para quem?
30/04/08

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