sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Psicanálise, afinal o que é?

Claro, esse título é muito ambicioso se considerarmos que nunca existiu um consenso durável sobre o que seja a psicanálise. Desde que o Freud passou a sua vida pesquisando e escrevendo sobre o funcionamento da mente humana, abrindo assim o caminho para uma nova profissão, o campo psicanalítico é caracterizado por controvérsias múltiplas e acaloradas entre os seus praticantes. Só não saem por aí aos tapas porque quase sempre são pessoas muito bem educadas…

Se a gente olha com cuidado para esses cem anos desde Freud, a coisa que mais se discute é quem ou que grupo representa a psicanálise verdadeira, genuína, como se isso pudesse um dia ser conquistado. Os primeiros discípulos de Freud foram logo se conflitando, cada um enxergando uma parte desse imenso elefante disforme que chamamos de mente e que nada tem de lógico ou de racional. Alguns foram rejeitados ou abandonados no meio do caminho, como por exemplo Karl Adler. Outros, depois de causar intensas cisões, discussões e batalhas, acabaram sendo incorporados e continuaram sendo aceitos pelo o poderiamos chamar movimento psicanalítico.

Melanie Klein está nesse grupo. Quando ela surgiu no cenário Freudiano, foi logo trombando de frente com a Anna Freud e tiveram desavenças intensas sobre o papel do psicanalista na analise de crianças. Já houve tempo quando um psicanalista Freudiano dava volta no quarteirão para não se encontrar com um Kleineano. E assim foi com Kohut e muitos outros, e mais recentemente com Jacques Lacan.

Entre muitas outras coisas e com dimensões infinitas a psicanálise é acima de tudo um corpo teórico, um método de pesquisa e uma forma de tratamento de desordens mentais. Na medida que os praticantes dessa profissão já chamada de impossível, fazem as suas contribuições teóricas quase sempre fruto do seus trabalhos clínicos, algumas são absorvidas pela correnteza central do que poderia ser chamado conhecimento psicanalítico, parte de um consenso. O problema nessa assimilação contudo tem vindo dos próprios psicanalistas criativos e talentosos que ao fazer suas contribuições, chamando a atenção para certas áreas até então não percebidas ou exploradas acabam fundando a sua "escola" separada das outras. Infelizmente, a partir de sua nova visão ocorre a formação de um grupo fiel ao autor, se separando da correnteza central em busca de uma identidade própria, quase sempre rotulada da verdadeira psicanálise. Assim é que apareceram no cenário os Kleineanos, os Kohutianos e mais recentemente os Lacanianos.

Fica parecendo que as pessoas que se interessam pela psicanálise nem sempre conseguem ter uma visão do todo, do corpo teórico que vem se acumulando desde Freud com milhares de contribuições. Talvez para simplificar um campo tão complexo, os psicanalistas, especialmente os mais jovens, se aliam a um só autor se tornando assim devotos que não admitem olhar para idéias e experiências que não venham dos suas livros sagrados. Isso para o movimento psicanalítico é muito ruim e tem sido causa de muito atraso tanto no crescimento do seu corpo teórico quanto na técnica, na pesquisa e do atendimento clinico.

Aqui não é o lugar para a gente ficar lamentando. Possivelmente o movimento psicanalítico sempre foi e será assim, com suas guerras tribais e disputas mercadológicas sob o disfarce da pureza científica e outras coisas mais. Imagino que a pessoa que se propõe a ser um(a) psicanalista deverá estar preparado para esse campo tumultuado e movediço que provavelmente reflete a natureza inevitável do noss funcionamento mental.
23/12/2007

Nenhum comentário:

Postar um comentário