sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Psicanálise: Individual, de Casal ou...de Família?...

Puxa, tentei escrever este artigo muitas vezes. Que tema difícil. Quase desisti no meio do caminho para escolher um outro tema. Por exemplo: Psicanalise e Remédios… Mas, vamos tentar!

Os psicanalistas, desde Freud, começaram com um modelo de atendimentos individuais e custaram muito a se interessar por um atendimento de casais e de famílias. Aliás, o próprio Freud, se não me falha a memória, numa ocasião confessou que se sentia perdido ao tentar lidar com as famílias de seus analisandos. Durante toda sua vida ele esteve centrado no indivíduo que o procurava em busca de alívio para as suas dificuldades mentais. Além disso, Freud também era bem pessimista com relação ao tratamento das doenças mentais mais graves, porque achava que tais pacientes não conseguiam formar com ele um laço terapêutico. Só muito mais tarde os seus seguidores não só se aventuraram no atendimento de casais e de famílias, como, ao mesmo tempo, também se interessaram pelo atendimento de pessoas com doenças mentais graves. Sobre isso falarei num outro artigo futuro.

Alguns analistas continuaram sempre trabalhando na tradição do atendimento individual de pessoas que eram consideradas “analisáveis”, isso é, sem um distúrbio mental grave. Melanie Klein, por exemplo, trabalhou com crianças individualmente, sem se envolver com suas famílias. Ela se percebia apenas como interpretadora do inconsciente dessas crianças sem olhar para o que se passava entre as crianças e suas famílias. Dizem as más línguas que ela assim agia porque a maioria de seus (suas) pacientes eram filhos(as) de colegas. Já Anna Freud discordou dela achando que, além da interpretação, o relacionamento da criança com ela era importante, o mesmo ocorrendo com o que se passava na família em termos interpessoais. Isso gerou uma grande cisão no movimento psicanalítico e só não deu pancadaria porque uma evitava a outra. Só hoje isso está sendo mais ou menos resolvido e integrado na correnteza central do pensamento psicanalítico.

Repetindo, a psicanálise por muito tempo foi um tratamento individual para pessoas que quase não precisavam de tratamento e, por isso mesmo, os resultados eram sempre bons, apesar de nunca poderem ser medidos. Tudo muito subjetivo. Sinto estar andando num campo minado ao fazer tais afirmativas…

Então, inicialmente o paciente psicanalítítico ideal seria um(a) jovem, solteiro(a), introspectivo(a) e rico(a), capaz de pagar os honorários, freqüentemente ambiciosos dos seus psicanalistas. Infelizmente, no caso da riqueza herdada, o prognóstico quase nunca é muito bom. Esses “felizardos”, via de regra, criados na mordomia, não passam necessidades e frustrações. Por isso quase nunca têm a motivação para persistir num tratamento que vise mudar a sua maneira de ser no mundo. Quando algo dá errado em suas vidas, estão sempre prontos para culpar o mundo. Preferem, na hora do aperto, passear em Paris ou comprar um carro novo, deixando o analista sempre para depois. Então, não basta o paciente ideal ser rico, o melhor é ele ser capaz de ter rendimento proprio fruto do seu trabalho, para pagar o analista.

Voltando a esse paciente ideal. Ser solteiro(a) é sempre bom. Ainda não está preso(a) numa engrenagem marital que torna tudo mais difícil na hora das mudanças. Se existem filhos, a coisa fica ainda mais encrencada! E… quem trabalha tem sempre uma melhor relação com a realidade e conseqüentemente uma melhor saúde mental. Quando terceiros pagam o tratamento, geralmente pais ou cônjuges, fica mais dificil conduzir o tratamento sem a interferência deles. Via de regra, acabam participando de uma maneira ou de outra. Ganham um certo poder até de interromper o tratamento se este não está indo na direção que acham desejável. Finalmente, o(a) paciente ideal deve ainda ter um pouco de espaço para rever ou quem sabe alterar a natureza do seu trabalho na medida que entende melhor as suas motivações. Freud, na sua sabedoria, aconselhava os seus analisandos iniciantes a não fazerem decisões muito importantes em suas vidas, tipo casar ou separar, mudar de trabalho ou de lugar geográfico, antes da análise estar mais adiantada.

Vocês já devem estar sacando que esse paciente ideal não passa de uma abstração e que na prática ele raramente existe. Quase todos os casos que chegam ao consultório já estão comprometidos em engrenagens interpessoais que envolvem cônjuge, família e trabalho. E sempre mostram um grau muito variado de psicopatologia!

Por isso, os psicanalistas tiveram de se virar para incluir esse mercado psicopatológico nos seus atendimentos. Na evolução do tratamento psicanalítico começaram a aparecer tentativas de ir além do indivíduo, isto é, intervenções em nivel do casal e da família.

Se imaginarmos um continuum entre o atendimento individual do paciente saudável e independente, de um lado, e o atendimento do paciente dependente e com doença mental grave do outro, em algum ponto a familia irá, inevitavelmente, participar do tratamento. Como a psicanálise não é uma ciência exata, essa inclusão da família tem sido feita na base de tentativas e erros e só aos poucos vamos chegando a algum consenso. Os atendimentos do casal e da família são muito mais recentes do que o atendimento individual proposto por Freud.

Voces sabiam que terapeutas de família já chegaram a internar a família inteira juntamente com paciente identificado? E, no outro extremo, um psicanalista chegou a afirmar que só tem bons resultados com pacientes graves quando a familia dele se afasta, deixando-o apenas com casa, comida e a análise individual. Dois extremos que bem demonstram a complexidade do atendimento e a singularidade de cada caso.

Existem famílias, geralmente de bom poder aquisitivo, em que cada membro está em tratamento individual, cada um no seu canto, incapaz de se relacionar com os outros autenticamente. Em situações como estas será que essas psicanálises individuais não estariam perpetuando uma doença familiar? No caso de casais, o mesmo pode ocorrer. Não é raro encontrar cada um fazendo a sua análise individual quando o que poderia estar ocorrendo seria uma abordagem do casal. Eu já ouvi gente dizer que quando um parceiro inicia uma análise sem o outro participar, a coisa sempre termina em divórcio. Não existe cônjuge que consiga competir com o entendimento e compreensão que o analista oferece

Então, levando isso tudo em consideração, que tratamento recomendar quando alguém procura o analista: Individual, de Casal ou de Família?

Um bom clínico no mundo de hoje, ao se deparar com um novo caso, deve ter a liberdade de propor a estratégia inicial do tratamento concentrando-se na área de maior problemática: o indivíduo, o casal ou a família. E ir até além Às vezes a área mais comprometida na vida de uma pessoa está na sua inserção psicossocial em termos de adaptação (não estou falando de conformidade). Por isso um analista deve batalhar por uma sociedade onde ele e seus analisandos tenham as maiores chances de trabalhar na direção da saúde mental e da plena cidadania.

Desde Freud as coisas têm mudado muito no nosso campo. Se ele estivesse entre nós até hoje, certamente que estaria pensando diferente do que ele fez durante a sua vida. Só os freudianos, kleinianos e lacanianos etc. é que não mudam muito, devotos desses textos passados. Devemos estar abertos a todas as mudanças que tornem o nosso atendimento mais eficiente. O que nos norteia deve ser sempre… os resultados!

Imagino que no futuro, a psicanálise de casais e a de família irão se tornar cada vez mais populares e os psicanalistas terão cada vez mais liberdade de recomendar o que é melhor para cada caso sem colocar todos num leito de Procrusto.
23/12/07

7 comentários:

  1. Por obséquio...sempre soube fazer parte da ética profissional,o analista tratar apenas um dos conjuges e não os dois ao mesmo tempo,como é praticado na terapia de casal.O que o senhor teria a dizer a este respeito?
    obrigada.

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    1. O processo psicanalitico inventado por Freud sempre foi um atendimento individual. Mas aparecerem os analistas que se interesaram por casais e por familias. Esses campos são mais recentes. O que não pode é começar num modelo e mudar para outro. Por exemplo se o analista inicia um tratamento do casal ele nunca poderá se psicanalista de um dos dois do casal.

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  2. Gostei. Estou separado de minha esposa, tenho 2 filhos. Iniciei um tratamento, mas a psiquiatra chamou minha filha e depois nos chamou (eu e minha filha). Antes, porem, a minha filha que está estudando medicina me traiu e ligou para a mãe e esta me ligou furiosa: " voce não tem que marcar psiquiatra para a fulana não, apenas para voce que é o único doido " Aí eu a chinguei, mas eu e minha filha fomos ao consultório da psiquiatra. Lá a profissional já estava com a cabeça feita para a separação, eu argumentei contra, ela acabou concordando e aí o trabalho foi interrompido por minha culpa e tambem da psiquiatra que não me ligou até hoje. E o que fazer?

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  3. Muito interessante esta ideia do paciente ideal...

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  4. gostaria de ajuda tenho 25anos meu marido tem22 e temos 3filhos e agora com 5anos e meio de casados que nao estamos nos entendendon mais ja tentei ser quem nao sou para ele mais pelo jeito nao ta dando serto quando falo que vou embora ele diz que nao vai deixar e diz que me ama que nao vai conseguir viver sem mim e sem as criancas o que faco

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    1. Vocs são muito jovens. Não sei onde voces poderiam começar. Talvez numa terapia de casal? Ou se um se recusar, o que esta interessado começar um atendimento individual?

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