sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Psicanálise num país Tupiniquim

Num país Tupiniquim e cheio de auês como é o Brasil, fica fácil alguém se apresentar como psicanalista e até ter grande sucesso profissional. Para isso, basta ser inteligente, bem articulado na fala ou na escrita (quase nunca alguém consegue ser nos dois), ler Freud ou Lacan e sair por aí com roupa de grife e… sim… sem se esquecer de uma ou mais correntinhas de ouro no pescoço. Claro que sempre prometendo resolver todos os tipos de problemas, desde as desordens físicas mais impiedosas até as pequenas dificuldades da vida quotidiana.

Como deve ser difícil para o cidadão comum escolher o seu psicanalista na hora do aperto. Pior ainda, avaliar se seus encontros com esse analista estão lhe rendendo os bons frutos prometidos. Algumas pessoas passam a vida toda fazendo uma psicanalise interminável, substituindo o viver e suas consequências pela vida no divã.

Mas, como assim? Será que toda a psicanálise é assim? Claro que não. Existe um lugar para o tratamento psicanalítico de certas dificuldades mentais e esse procedimento clínico inventado por Freud sempre teve a sua validade. Mas como você, um cidadão comum, pode escolher um analista que possa ajuda-lo com os seus problemas?

Primeiro e acima de tudo, evite os psicanalistas que falam ou escrevem numa linguagem que você não consegue entender. Fuja deles como o diabo da cruz. Posso lhe garantir que seus encontros com esses “sábios” não resultarão em nada apesar da fala obscura que pode até lhe impressionar Freud, por exemplo, nunca fez isso. Prefira sempre um psicanalista que fala a linguagem comum na nossa cultura.

Em segundo lugar, evite os psicanalistas que são fiéis a um só autor ou “escola”. Os sambistas de uma nota só. Ele estará mais preocupado em encaixá-lo no modelo do seu mestre do que em tentar entender o que se passa em sua mente. Evite os Freudianos, Kleineanos, Lacanianos e outros “anos”. São monoteístas, mais interessados em seguir os seus deuses exclusivos do que as suas associações livres. Um bom analista não se atrela a um autor, por melhor que ele seja. Ele terá lido muitos autores sem entrar para “o clube” de nenhum. Ele usa os seus conhecimentos, vindos de várias fontes, para trabalhar com você as suas dificuldades.

Em terceiro lugar, fuja dos analistas que nunca foram adequadamente analisados. Pergunte, na cara de pau, sobre a sua formação, a que grupo pertencem e, acima de tudo, se fizeram uma análise pessoal. Numa profissão que nunca foi regulamentada (nem sabemos se isso é possível), pessoas se dizem analistas sem nunca terem sido analisadas. Posso lhe garantir que, por mais brilhantes e cultas que sejam, não vão ser capazes de enfrentar as dificuldades que surgem no tratamento psicanalítico à medida que ele evolui.

Em quarto lugar, não fique com os analistas que acrescentam outras variáveis ao processo terapêutico, além da sua fala. Por exemplo, eletroencefalogramas por mais coloridos que sejam; recomendações de livros para você ler ou CDs para você ouvir. Não confie nos que focalizam nos seus sonhos sem deixá-lo livre para levar nas sessões o que aparecer na sua mente no momento do encontro. E, muito importante, desconfie dos que não falam nada e evitam se relacionar com você, se escondendo atrás de um silêncio defensivo.

Em quinto lugar, pergunte sobre a disponibilidade do analista em atendê-lo consistentemente sem interromper as sessões por razões teóricas, viagens, congressos, passeios e tudo o mais. Pergunte se você pode ter acesso a ele num momento de maior dificuldade e stress. Evite os que se refugiam em sítios sem telefone, os que têm celulares que nunca atendem e não podem nunca ser encontrados. Não é fácil encontrar analistas confiáveis que sabem ouvir inteligentemente.

Por fim, depois de começada a sua análise, exija o recibo que você tem direito ao pagar o analista. Essa coisa de o ficar agradando através de não pedir recibo é um mau começo. A psicanálise é um bom investimento, dedutível do Imposto de Renda.

Na medida em que você tenta revelar ao analista todos os seus pensamentos e sentimentos, inevitavelmente você estará também o examinando. O seu relacionamento real com o analista é crucial, a aliança que se forma entre vocês em busca de verdade é da maior importância e deve ser sempre preservada, apesar das distorções transferenciais inevitáveis. Se você sentir que uma aliança não se formou, tome duas providências: primeiro leve isso para ser conversado com o analista, segundo se não houver um progresso na formação dessa aliança, tente outro analista. Confie sempre na sua percepção e nos seus sentimentos.

Paro por aqui. Acho que hoje já temos material suficente para a gente pensar.

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