domingo, 1 de novembro de 2009

Vale a pena crescer?

Para que as pessoas crescem? De acordo com Freud, para serem capazes de amar e trabalhar. Isso pode parecer uma tarefa simples, mas nós sabemos que não é. São muitos os perigos nessa jornada que começa no nascimento e vai até a morte. Pensem em suas próprias histórias, em tudo que vocês passaram tentando crescer e me darão razão. A coisa não é fácil.

Muito tem sido escrito sobre o desenvolvimento humano. Sob a ótica da psicanálise nós crescemos, com a ajuda das pessoas importantes ao nosso redor, aos trancos e barrancos, enfrentando inúmeros conflitos que devem ser solucionados em cada etapa. Esse crescimento é muito complexo e ocorre em múltiplas dimensões, entre elas os nossos instintos maleáveis, nosso ego, nossa consciência, os nossos relacionamentos com os outros e com a realidade na qual estamos imersos. Desde o nascimento, o ego e o super ego, juntamente com os instintos, se desenvolvem. Vocês já devem ter percebido que estou tentando abordar um tema difícil.

Nos Estados Unidos, quando a psicanálise estava no seu auge, o “Instituto Nacional de Saúde Mental” publicou três volumes abordando o desenvolvimento humano, com o título “The Course of Life: Psychoanalytic Contributions Toward Understanding Personality Development”, editado por Stanley I. Greenspan and George H. Pollock. Um livro que permanece valioso para quem se interessa por esta questão.

“Quem quiser encontrar o amor, vai ter de sofrer, vai ter de chorar”, diz a música. Do nascimento até o amor e o trabalho, são muitas tarefas a serem cumpridas. Nós só conseguimos nos aproximar desse ideal maduro depois de tentativas, erros e fracassos que geram desapontamentos. Mas, nós só fracassamos mesmo quando paramos de tentar.

O amor maduro genital é a experiência mais prazerosa que o ser humano pode ter, mesmo quando ela não é duradoura. Já dizia o poeta que “o amor é eterno enquanto dura“. Se pensarem bem, todos nós, no fundo e acima de tudo, estamos em busca desse amor maduro. Mas como conseguimos chegar lá é uma coisa muito individual que não pode ser generalizada. Vai depender da genética, da constituição, da constelação familiar, das sortes e adversidades que são sempre imprevisíveis. Nenhuma história pessoal é igual à outra.

Uma das inúmeras dimensões do desenvolvimento humano pelas quais os analistas sempre se interessaram é a progressão da libido à medida que a pessoa cresce. A libido, isso é, o motor interno em busca do prazer, está presente desde o nascimento. Por muitos anos Freud acreditou que ela fosse o nosso único instinto. Ele adotava uma teoria monista dos instintos. Só mais tarde ele, a partir da observação clínica e do mundo em geral (especialmente as reações terapeuticas negativas e a primeira guerra mundial) ele mudou essa concepção e considerou a agressividade um instinto tão importante quanto a libido. Passou a adotar então uma teoria dualista dos instintos.

Existe uma sequência mais ou menos previsível na busca do prazer, à medida que a pessoa cresce. São as fases do desenvolvimento libidinal: oral, anal, fálica, latência e genital. Essas fases são superpostas. Sempre existem elementos das fases anteriores nas subsequentes e nenhuma delas é totalmente abandonada. As vicissitudes do desenvolvimento da personalidade tem uma relação muito íntima com a psicopatologia, pois os eventos de cada fase, especialmente os traumáticos, influenciam muito o nosso comportamento futuro.

Vamos começar com o nascimento. O feto só se torna uma pessoa quando nasce. Será que essa experiência, tão natural, seria traumática? As opiniões divergem. Existem analistas que acreditam que todas as neuroses estão enraizadas no “trauma” do nascimento. Freud, sabiamente, nos chamou a atenção para a sobrevivência do bebê, em termos da necessidade da alimentação e do calor, vir acompanhada da experiência do prazer no contato físico com a mãe, especialmente através da pele e da boca. Esta seria a fase oral do desenvolvimento. Claro que estou e irei simplificar muito essas fases do desenvolvimento para que esse artigo não fique muito longo.

Vamos para a segunda fase, a chamada fase anal. Aqui a criança já fala, isto é, entrou no mundo do simbólico depois de viver no imaginário do primeiro ano de vida. E ela já começa a andar e ter certa autonomia. Muito do relacionamento mãe-criança se centra agora na questão do controle dos esfíncteres. A criança começa a teimar e a dizer não, ficar emburrada. Ela quer ter a liberdade de brincar com suas fezes e não aceita o controle da mãe. Esta, por outro lado, quer educar a criança. A criança descobre outra zona no seu corpo que é capaz de lhe dar prazer: o ânus. Com ela vem o prazer de reter e de soltar as fezes como forma de autoafirmação. Não será difícil para vocês imaginarem como conflitos nessa fase podem contribuir dificuldades emocionais na vida adulta. Já pensaram no adulto que passa a vida só tendo o prazer de economizar e de reter?

Chegamos depois na fase fálica. Aqui as crianças descobrem a presença ou a falta do pênis. Os meninos descobrem que esse órgão visível que eles podem pegar lhes dá prazer. As meninas veem o corpo do menino, percebem a diferença e sentem como se estivesse faltando alguma coisa nos seus corpos. Vocês também podem imaginar as consequências de conflitos nessa fase do desenvolvimento até a maturidade. Tanto o menino, quanto a menina podem não supera-la. O menino fica com medo de perder essa parte do seu corpo e a menina, com inveja do menino, tentando descobrir como poderá sanar essa falta.

Se nas fases anteriores a relação principal é com a mãe, apesar da presença do pai já ser sentida desde o nascimento, nessa fase fálica o pai se torna mais presente e a situação entre filhos e pais passa a ser mais triangular. O velho complexo de Édipo, tão bem descrito por Freud e presente desde o nascimento, aqui atinge o seu auge quando vemos o menino com o seu amor pela mãe, desejando tirar o pai do caminho. Mas ao mesmo tempo ele também ama o pai, daí o conflito, a culpa e as fantasias de ser castigado por ele. Para as meninas a coisa é mais complicada. Primeiro porque, assim como os meninos, o seu primeiro amor é a mãe, só que aqui elas mudam na direção do pai que, supostamente, poderá lhes dar o que está faltando: o pênis.

Depois dessa fase fálica a libido entra no período de latência e a criança vai se dedicar a estudar e aprender. A libido recua um pouco e a criança fica numa posição meio assexuada para poder se interessar pelo mundo e pelos estudos. Chegou a hora de aprender nas escolas. A maioria dos esforços é nessa direção. Mas a libido, não se iludam, estará lá sempre disfarçada, meio subterrânea e poderá afetar muito essa questão pedagógica da aprendizagem.

A coisa explode de novo na puberdade. Aí os hormônios obrigam o (a) jovem a lidar com a libido outra vez. E há quem diga que todas as fases da infância são revividas na puberdade e na adolescência, isto é, essa é uma segunda chance do (a) jovem lidar com o seu crescimento de um modo saudável. Entramos na adolescência que ao contrario da infancia tem ca vantagem do (a) jovem poder eventualmente se separar dos pais, encontrar uma companheira (o) e uma profissão. Isso é, ser capaz de amar e trabalhar entrando na fase genital do desenvolvimento.

Só como uma parentese. Uma terceira maneira que a pessoa tem de tentar corrigir as dificuldades no seu desenvolvimento psicossocial é fazer uma psicanálise. Assim os indivíduos têm três chances de corrigir o seu desenvolvimento emocional: a primeira na adolescência, a segunda na psicanálise e suspeito que ainda existe uma terceira que é na criação dos filhos. Os filhos nos levam de novo às nossas fases do desenvolvimento e podemos com eles aprender a lidar com elas de um modo mais adaptativo.

Não queria terminar sem chamar a atenção sobre a importância dos relacionamentos interpessoais com pessoas significantes à medida que a criança cresce. Harry Stack Sullivan um talentoso psicanalista norte-americano passou a vida estudando os relacionamentos interpessoais e criou uma Teoria Interpessoal da Psiquiatria. Os relacionamentos humanos, como nós bem sabemos por experiência própria, podem nos influenciar para o bem e para o mal. Não preciso dizer que quanto mais saudável mentalmente forem as pessoas significantes do nosso passado, mais facilmente nós iremos crescer. Mas, como consolo, as crianças que tiveram mais dificuldades em crescer são as que eventualmente entendem melhor a importancias das dificuldades emocionais próprias e de terceiros e, se conseguem supera-las, acabam virando ótimos psicanalistas.

Devo mencionar aqui que os contos da carochinha sempre terminam com as pessoas casando e sendo felizes para sempre. Infelizmente, como bem sabemos as coisas não são bem assim. O nosso crescimento continua em fases adultas mais ou menos previsíveis: ter e criar os filhos, meia-idade e mais tarde a velhice e a morte. Nessa trajetória há sempre uma fase intermediária inevitável para cada um de nós: lidar com os nossos pais que adoecem e morrem.

Na escola da vida não existem férias e do nascimento até a morte tudo vai acontecendo, rolando, de modo imprevisível, e a gente tentando lidar com isso da melhor maneira que somos capazes. Como disse um comediante quando alguém lhe perguntou se ele acreditava na vida depois da morte: “Ah, meu filho, eu mal estou dando conta de enfrentar a vida depois do nascimento e você já quer que eu enfrente mais uma?”

Vale a pena crescer?