quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Tudo com as melhores intenções...

De vez em quando eu converso com a minha cozinheira. Ela deve ter os seus trinta e cinco anos, e casou-se no ano passado. Já trabalha na nossa casa há muitos anos. O que me chama a atenção é que nunca a percebi deprimida, ansiosa ou infeliz com a sua vida. E olha que ela chega no trabalho às seis da manhã para sair às duas da tarde. Ela já me contou um pouco de sua história. Cresceu, com dois irmãos, sob os cuidados da mãe. O pai desapareceu cedo de sua vida para nunca mais voltar. A mãe, uma senhora mais idosa, de vez em quando a substitui aqui em casa e às vezes conta também como conseguiu criar e educar os seus filhos.
Sabem o que me impressiona nessa moça humilde? Seu estado mental. Ela parece estar sempre de bem com a vida. Nunca se queixa de qualquer coisa, seja falta de dinheiro ou problema emocional. E, o que é mais importante, ela tem aquela sabedoria de quem entrou cedo para a escola da vida. Suas opiniões sobre as coisas e as pessoas são quase sempre pertinentes, ela vive com muito pé no chão, dentro da sua realidade.
Às vezes o contraste é grande entre ela e as pessoas que eu atendo no meu consultório. Geralmente são pessoas afluentes de outra classe social. Muitas têm seus motoristas particulares e uns poucos até aviões. Mas, apesar dessa mordomia toda, têm queixas e depressões. Sentem angústias que chegam, às vezes, a incapacitar suas vidas. Claro que nem todos são assim. Mas esse contraste me chama a atenção. Por que a minha cozinheira está adaptada à sua realidade e alguns dos meus pacientes afluentes não?
Ficar filosofando sobre essas coisas não é meu estilo, mas não resisto a perguntar o porquê dessas diferenças. Afinal, de onde vem o bem-estar das pessoas quando estão de bem com a vida, adaptadas a condições tão dramaticamente diferentes?
Uma coisa eu já percebi, mas ainda não posso generalizar: quanto mais uma pessoa rala enquanto cresce, enfrentando dificuldades reais, mais preparada ela fica para enfrentar as realidades da vida adulta. Mas, vocês poderão dizer que a realidade nunca é a mesma para todos. A que o pobre enfrenta é muito diferente da dos ricos, especialmente os criados num berço de ouro. Sim, acredito que isso é verdade, mas... só até certo ponto.
No meu trabalho, lido com filhos de famílias afluentes que nunca passaram necessidades. Isto é, nunca ralaram. Frequentemente crescem numa realidade de indulgência e mordomia. Mas, quando chegam à vida adulta, acabam não sendo bem-sucedidos. Não fazem bem a transição de filhos protegidos e mimados para entrar na escola da vida. Há muito desconfio que alguns desses pais, sempre com as melhores intenções, acabam – sem saber – estragando seus filhos. Que lástima. Sei que eles nunca desejaram isso.
Eu me lembro de um paciente que cresceu assim, com proteção, empregadas, nunca precisou trabalhar ou enfrentou dificuldades financeiras. Comida na mesa todos os dias, roupa lavada, dinheiro para as necessidades e prazeres. E os pais sempre muito bem-intencionados nunca queriam que o filho passasse dificuldade. Pois bem, esse paciente com 25 anos resolveu sair de casa e tentar trabalhar por conta própria. Uma decisão que eu até achei saudável. Mas, que choque! De repente se encontrou sem a família, num apartamento meio precário, alugado, com um salário apertado que mal dava para o necessário e sem nenhuma empregada. Como ele me disse muitas vezes, ficou logo revoltado. Achava que o mundo estava todo errado. Inúmeras vezes se viu preparando para voltar para aquela realidade dentro da proteção e mimo da família de origem. Ainda bem que ele resistiu a essa tentação.
Sei que alguns colegas psicanalistas têm fobia da palavra realidade e entram em pânico quando ouvem falar de adaptação. Eles acham que adaptação quer dizer conformidade e que isso nada tem a ver com a psicanálise porque ela somente se ocupa de interpretar o inconsciente. Apesar de aceitar tal objetivo como sendo importante, eu não consigo dispensar essa outra dimensão que trata da inserção e adaptação da pessoa no social.
Agora chego ao ponto que quero levantar neste artigo. Tais pais, sempre com as melhores intenções, especialmente quando podem oferecer tais mordomias, acabam estragando os seus filhos, impedindo-os de crescer. Alguns, que tiveram uma infância difícil, não querem que os filhos passem pelo que passaram. Outros, simplesmente não querem ter o trabalho de dizer não, de colocar limites, especialmente quando esses limites não são “realisticamente” necessários em termos da posição socioeconômica da família.
Eu tenho atendido pessoas de trinta, quarenta ou cincoenta anos que, criadas em tais situações, acabam não encontrando um caminho na vida. Fica me parecendo que o que as pessoas ganham em termos de afluência e proteção na infância, perdem em termos da adaptação à realidade do mundo adulto quando isso se torna mais necessário. Uma espécie de correção, compensação.
Eu não sei se vocês sabem que no inconsciente a indulgência, isso é, o falar sim para tudo, reverbera como uma rejeição. Outro dia, um pai estava angustiado comigo sem saber que carro dar ao seu filho que acabava de formar no segundo grau. O filho queria um carro importado muito caro e o pai estava preocupado em não estragar o seu filho. Em termos da realidade econômica da família isso não seria problema. Mas em termos do crescimento emocional do filho isso muito bem poderia ser. Passamos algum tempo debatendo sobre o que poderia ser realista frente aos desejos do filho.
Isso tudo me lembra das famílias norte-americanas, muito menos inibidas em termos de dinheiro e como elas lidam com tais situações. Um filho, por exemplo, decide que quer aprender a tocar o saxofone. Numa família afluente brasileira, não seria surpresa se os pais imediatamente comprassem o melhor saxofone no mercado. Numa família americana, possivelmente os pais diriam que o filho poderia começar a ter aulas de saxofone, mas inicialmente eles iriam alugar um, até o filho saber ao certo se era isso mesmo que queria e se ele tinha mesmo talento para tal. Gradativamente eles iriam melhorando a qualidade do instrumento na medida em que o filho fosse demonstrando estar aprendendo e sendo bem-sucedido no que estava fazendo.
Vocês percebem que estou falando essencialmente de “adaptação”. Eu acho difícil fazer uma psicanálise com um analisando sem levar em consideração a adaptação como uma das dimensões a serem consideradas.
As famílias afluentes devem tomar muito cuidado para não estragarem os seus filhos, mesmo que isso seja feito com as melhores intenções. Pelo menos esta é a minha opinião a partir de minhas experiências no meu consultório e nas conversas com a minha cozinheira.
O que vocês acham?

10 comentários:

  1. O que eu mais admiro, Dr. Marcio, é seu incansavel interesse pelo ser humano!
    Sandra

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  2. Muito pertinentes suas observações, caro Márcio. Acho espetacular sua capacidade de opinar baseado em observação e ciência. Vê-se bem que não é puro empirismo: o que você diz integra 'naturalmente' as teorias que o sustentam com a realidade sempre mutante e singular da clínica. Admiro-o.

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  3. Estabelecer uma relação de troca é muito importante, nada vem de graça. O bem estar é proporcionado por se reconhecer como merecedor. A teoria behaviorista é baseada nesta linha de pensamento. Incluise em analise comportamental o sujeito que teve uma educação que ganha tudo fica muito dificil pois não há como se fazer uma analise comportamental se não houve antecedentes que o fizeram ganhar algo e a vida para ele é vista como algo mágico e que a qualquer hora o milagre vai acontecer independente do que fez ou deixou de fazer.

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  4. É verdade... Sou pobre e observo como os herdeiros dos ricos são sujeitos ilimitados, cujos pais não os educam para respeitar o Outro, pois os julgam príncipes e princesas em país tupiniquim. E tais 'filhinhos de papai' ao deparar com a realidade, acreditam que o Outro existe para serví-los e tolerá-los (sem remuneração), e ao mínimo estímulo negativo, tais 'bonecas de porcelana' quebram e se tornam mais um em consultório psiquiátrico ansiando que o médico lhes dê a fórmula da felicidade e os casos mais graves
    agredirão a sociedade, que paga a conta.
    São sujeitos que acreditam que a sociedade deve se ajoelhar aos seus pés, são reizinhos cujos reinados são tragédias pessoais e sociais.

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  5. Caro colega... É interessantíssima sua observação: os pais, cada vez mais, deixam aos cuidados das babás, das escolas, das creches... (as mães com produção independente ) a cargo das avós a educação dos filhos.

    Educação se dá com exemplos. E não com cobrança.
    Se um lar é desestruturado, com brigas em frente das crianças e adolescentes, porque o mesmo não fará isso na rua?

    Infelizmente a doença mental acomente igualmente Ricos e pobres - Sorte tem a sua "ajudante" de ter uma genética e estrutura familiar de saber lidar com a vida... de saber lidar com as situações adversas - parece ser uma característica do brasileiro, em geral, que encanta todos os estrangeiros - pode tudo estar ruim, que o brasileiro (a maioria) dá seu jeitinho e vive com um salário minimo - não me pergunte como.

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  6. Muito interessante teu blog, já add aos meus favoritos.
    Este tema me fez pensar...
    Parabéns

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  7. Meu comentário saiu c anônimo, não sei c cadastrar..
    Desculpe

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