quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Psicanálise e lugares comuns.

Parece que viraram moda os artigos bem escritos por psicanalistas competentes e inteligentes denunciando a sociedade onde vivemos como uma das causas de nossos males. Geralmente eles se apoiam em “O Mal-Estar na Civilização” que, como tudo o mais em Freud, ninguém pode descartar. Apesar de ter nos deixado há mais de cem anos, Freud permanece um sábio. Infelizmente, esses artigos caem num lugar comum da crítica ao capitalismo, ao progresso tecnológico e à “sociedade de consumo”. Sem querer provocar, uma associação: será que os índios que Pedro Álvares Cabral encontrou por aqui já não tinham as suas tecnologias, eram consumistas? Aliás, o próprio Cabral não chegou até aqui atrás de produtos para o consumo dos europeus? Vem então a pergunta: que sociedades humanas não foram ou são... de consumo? Tenho dúvidas se a industrialização, a globalização e o consumo irão diminuir para contentar esses psicanalistas.

Imagino que tais analistas podem estar cuspindo no prato que os têm alimentado porque os sistemas econômicos alternativos ao capitalismo nunca os acolheram ou encorajaram suas teorias e práticas. Além disso, muitos psicanalistas que se apresentam como socialistas, alguns até comunistas, sempre me pareceram muito ambiciosos quando cobram dos seus analisandos... Então, para ser breve: tenho para mim que a psicanálise cresceu nos sistemas capitalistas democráticos, dando sempre muita ênfase à individualidade do cidadão. Ela não convive bem com os sistemas coletivos.

Outro dia apreciei um desses artigos que apontava a solidão no mundo moderno como sendo consequência dos computadores. Longe de mim, defender a cibernética e me colocar contrário à necessidade de temperar os seus progressos com a convivência social. Claro que sempre existiu abuso em qualquer atividade humana. Com os computadores isso não poderia ser diferente. Mas, não posso negar que eles, que podem afastar as pessoas, podem também ser veículos de aproximação. Quando eu era jovem, encontrava as pessoas, amigos e namoradas nos “footings” da Praça da Liberdade e nas horas dançantes do Minas Tênis Clube e do Diretório Central dos Estudantes. Nesses locais a gente sempre via as mesmas pessoas em rituais previsíveis, o que nos deixava tranquilos para adiar a hora de nos aproximar das que nos atraíam. Hoje isso não existe mais. Tudo está mais rápido e as pessoas estão se encontrando sabem onde? Nos computadores. A não ser que eu esteja enganado, isso não vai mudar.

Essas críticas de analistas ao mundo moderno chegam até a considerar o uso da medicação psicotrópica como sendo um obstáculo ao tratamento psicanalítico, ao crescimento emocional e à resolução de conflitos humanos. Elas não levam em consideração que o próprio Freud afirmou em certa ocasião que possivelmente no futuro haveria soluções químicas para as desordens mentais que ele, tão brilhantemente, tratava com o seu método. Por favor, não estou aqui dispensando a psicanálise. Pelo contrário, a minha própria análise foi uma das experiências interpessoais mais importantes de minha vida e que, além de outras coisas, me levou a ser um psicanalista. Mas, não nego que em certos momentos de nossas vidas, a medicação psiquiátrica pode fazer uma diferença no alívio de nossos sofrimentos mentais e até ajudar o bom andamento de uma psicanálise.

Sempre percebo uma nostalgia nos psicanalistas descontentes com a sociedade e o progresso, essa tentativa de voltar aos bons tempos quando, sem outros recursos, os cidadãos com desordens mentais severas passavam anos e anos hospitalizados ou no caso de dificuldades menos graves nos divãs dos analistas. Sim, foi uma época de ouro da profissão! Mas hoje, se a psicanálise não acompanhar os progressos tecnológicos inevitáveis e as mudanças sociais que eles acarretam, ela poderá acabar sendo fossilizada na nossa sociedade. Me refiro aqui, de um modo muito breve às descobertas dos neuro-neurocientistas, das terapias de casal e de família e nas mudanças no numero de sessões e na atuação dos analistas nas mesmas.

É também um lugar comum afirmar que o ser humano está sempre em conflito com a sociedade como se a adaptação à vida social fosse sempre inimiga do indivíduo. Certos psicanalistas rejeitam a palavra “adaptação”, que para eles é equivalente a “conformidade”, a uma sociedade sempre “opressiva”. Entre o Inconsciente, o pré-consciente e o consciente eles só se interessam pelo inconsciente, como se esta fosse a instância mais importante do funcionamento mental. Apesar de aceitar que a psicanálise é a única psicoterapia que o leva em consideração, eu não acredito que ela deva descartar o consciente e o pré-consciente sem os quais ela não seria possível. Quando consideram a segunda tópica freudiana (Ego, Id e Superego), tais analistas parecem tomar partido do lado do id. Mas aí eu pergunto: o que seria mais importante numa pessoa, suas paixões, seu bom senso ou os seus valores? E acrescentaria também a sua adaptação à sociedade onde vive. Por isso, nunca aceitei esse lugar comum de colocar o ser humano permanentemente em conflito com a sociedade onde ele se insere

A mesma sociedade que proíbe a expressão dos prazeres, também oferece avenidas socialmente aceitas e até premiadas para sua expressão de modo sublimado. Não preciso dar muitos exemplos do que eu estou dizendo. Uma criança, na sua fase anal do desenvolvimento, gosta de brincar com suas fezes e claro, isso não é socialmente aceito. Ela deve ser “educada”. Mas, a mesma sociedade que lhe tira esse prazer lhe permite ser bem-sucedida em atividades relacionadas, por exemplo, às artes plásticas, brincando com suas tintas. Todos os prazeres chamados pré-genitais, proibidos pela educação, encontram avenidas de expressão prazerosas socialmente aceitas e até admiradas. Cantar, por exemplo, ou pilotar um carro de fórmula um pode ser as expressões sublimadas de prazeres pré-genitais proibidos. Daí eu duvidar se a sociedade é realmente sempre inimiga do homem. Mas faço uma concessão. Sem querer abordar esse tema ou me deter muito nele, tenho dúvidas se existem avenidas sociais sublimadas para os prazeres genitais adultos. Eles são regulados e controlados pela sociedade onde vivemos, mas mesmo assim devemos considerar que Freud viveu numa sociedade e cultura muito diferente da nossa atual, muito antes da descoberta da pílula e dos motéis. O que ele pensaria sobre o mal estar na civilização se estive vivo hoje?...

A sociedade está sempre em evolução e o progresso tecnológico é inevitável. O indivíduo para passar por esse mundo satisfatoriamente precisa se adaptar. Ele tem de lidar com o seu mundo interior tão bem estudado por Freud e com a sua inserção no mundo social harmonicamente. Não podemos voltar o relógio do tempo. As mudanças tecnológicas e sociais estão ocorrendo numa velocidade cada vez maior e certamente exigindo de todos nós uma adaptação cada vez mais flexível.

Não gosto de fazer profecias... E nem ser ave de mau agouro. Mas, apesar de continuar considerando a psicanálise como uma prática social de grande utilidade e importância, temo que, para sobreviver, ela terá que se adaptar a essas mudanças no mundo social na qual ela se insere. Esse é o maior desafio da psicanálise contemporânea. Se Freud estivesse vivo hoje, ele estaria abrindo novas fronteiras e revendo as suas teorias. Ele foi, acima de tudo, um desbravador e nunca teve medo de mudar as suas teorias de acordo com as evidências que lhe chegavam. Isso não ocorre com os Freudianos e todos os outros “anos”... que ficam parados no tempo!

PS. Gostaria de registrar aqui os meus agradecimentos à revisora Berenicy Raelmy Silva e suas inteligentes sugestões.

5 comentários:

  1. Oi Dr. Márcio!
    obrigado pelas lições!!!
    Te mandei um email. Vou continuar lendo os seus textos mais antigos, que ainda não tive tempo de ler.
    Abraços de todos nós, os Takahashis de Baltimore, agora, de Casper.

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    1. Itiro. So agora encontrei voce aqui. Que bom. Mande noticias.

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  2. Boa noite Dr. Márcio, recomendo-lhe fortemente que visite o site midiasemmascara.org.

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  3. Freud morreu em 1939, nada de 100 anos ou sem anus......

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